Proximidades 1

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Não sou magra. Ocupo inteiramente assento e encosto que um autocarro oferece ao passageiro — de preferência à janela, se entro nas primeiras paragens. E na idêntica medida (meticulosamente acomodo a  saia aos limites legítimos do espaço) deixo inteiro o banco gémeo a quem o ocupar. A quem convido a ocupar, por manifestamente o meu corpo se resguardar dele.

No arrumo colectivo de inesperados corpos não se escolhem vizinhanças; nem suas vozes, cheiros, cotovelos e bagagem de mão; quem se avizinha, ocupa. Ou se encaixa ou transborda. E recolho um braço, desloco o peso do corpo para uma nádega única, reduzo-me para evitar (e consentir) o que extravasa do banco de lá.

Quem viaja com lugar livre a seu lado, conseguirá mantê-lo se — por cálculo ou por simpleza — olhar nos olhos cada um dos que entram e avançam. Ninguém o escolhe, havendo outro. A proximidade acidental não admite a convivência. Para quem chega é mais convidativo, ou seguro, um vulto: não pessoa, mas caranguejo-ermita recolhido ao búzio oco, metálico e têxtil do seu lugar, e que se vira para dentro.

O banco de dois, que era só teu quando tinhas ao lado um lugar sem ninguém, torna-se o banco do outro, do recém-chegado. E a tua existência viva, de cheiros, sangue e sons, timidamente se anula até lugar e pessoa se mostrarem (serem) um búzio quieto.

A mesma arrumação de gente, tantos lugares sentados, tantos lugares de pé, exíguos sempre, organiza uma anulação da co-existência.

Raramente se co-existe num banco duplo de autocarro; a norma é respirar o mesmo ar, sem disso ter consciência, no tempo de uma vizinhança a que somos conduzidos sem a desejarmos nem a reconhecermos.

Somos pessoas educadas, tolerantes. Imóveis e ausentes.

lusco-fusco

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«…o exercício de reconhecer valor cultural a cada bocado de um todo ou ao todo feito em bocados.»

Já se sabia que a arte contemporânea expõe o fragmento; e, por vezes, se constrói sobre o fragmento. Mas não se sabia que uma arte (a música, o teatro) ou uma acção artística podiam ser entendidas como um vaso de barro partido em cacos.
Estou por tudo. Só me faltava estranhar que esta escavacada cabeça repousasse em papel de timbre oficial.

corrector? proibido.

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As primeiras linhas cativaram. Avancei. «Há!» E não percebi o sentido de escrever, naquela frase, «Existe! Sim, isto existe!» Tinha sido o corrector. A intenção (que não ponho em dúvida as intenções de quem não conheço) fora exclamar «Ah!», mas o corrector, humano ou programado, endiabrou-se e esticou a perninha para o tropeção.
Acabou ali mesmo a leitura.
Ou confio no português de quem escreve, ou passo adiante.