Proximidades 2

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A coxa, a fazenda, a mão viril.

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Proximidades 1

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Não sou magra. Ocupo inteiramente assento e encosto que um autocarro oferece ao passageiro — de preferência à janela, se entro nas primeiras paragens. E na idêntica medida (meticulosamente acomodo a  saia aos limites legítimos do espaço) deixo inteiro o banco gémeo a quem o ocupar. A quem convido a ocupar, por manifestamente o meu corpo se resguardar dele.

No arrumo colectivo de inesperados corpos não se escolhem vizinhanças; nem suas vozes, cheiros, cotovelos e bagagem de mão; quem se avizinha, ocupa. Ou se encaixa ou transborda. E recolho um braço, desloco o peso do corpo para uma nádega única, reduzo-me para evitar (e consentir) o que extravasa do banco de lá.

Quem viaja com lugar livre a seu lado, conseguirá mantê-lo se — por cálculo ou por simpleza — olhar nos olhos cada um dos que entram e avançam. Ninguém o escolhe, havendo outro. A proximidade acidental não admite a convivência. Para quem chega é mais convidativo, ou seguro, um vulto: não pessoa, mas caranguejo-ermita recolhido ao búzio oco, metálico e têxtil do seu lugar, e que se vira para dentro.

O banco de dois, que era só teu quando tinhas ao lado um lugar sem ninguém, torna-se o banco do outro, do recém-chegado. E a tua existência viva, de cheiros, sangue e sons, timidamente se anula até lugar e pessoa se mostrarem (serem) um búzio quieto.

A mesma arrumação de gente, tantos lugares sentados, tantos lugares de pé, exíguos sempre, organiza uma anulação da co-existência.

Raramente se co-existe num banco duplo de autocarro; a norma é respirar o mesmo ar, sem disso ter consciência, no tempo de uma vizinhança a que somos conduzidos sem a desejarmos nem a reconhecermos.

Somos pessoas educadas, tolerantes. Imóveis e ausentes.